
DISTÚRBIOS DA LINGUAGEM ESCRITA: DISLEXIA[1]
Vicente Martins[2]
Introdução
A dislexia é uma dificuldade específica na aprendizagem da leitura com repercussão, muitas vezes, na ortografia (disortografia). Os disléxicos mais comum no âmbito escolar são aqueles que, sem consciência fonológica, apresentam dificuldade de fazer o reconhecimento da palavra escrita, ou seja, não conseguem transformar as letras em sons da fala (fonemas da língua como vogais, semivogais e consoantes).
Neste encontro, primeiramente, tratarei de situar a dislexia no campo dos estudos lingüísticos, postulando seu caráter interdisciplinar, categoria de estudo presente na Psicolingüística, Lingüística Aplicada, Lingüística Clínica e Aquisição da Linguagem. No segundo momento, mostraremos que, a partir de um recorte de um referencial teórico no âmbito dos estudos da linguagem e de suas perdas (dis-lexia, dis-grafia, dis-ortografia), poderei postular a dislexiologia como ramo da Psicolingüística, abordando aspectos do conceito, descrição, avaliação, explicação e tratamento (intervenção) nos casos de dislexia em idade escolar. No terceiro momento, falarei da importância do diagnóstico ou de uma sondagem da dislexia no meio escolar, assinalando os parâmetros lingüísticos e paralingüísticos (por exemplo, o disléxico tende a ter problemas de ajustamento emocional) de observação do professores em sala de aula. No quarto momento, faremos comentários aos relatos de casos de dislexia e de outras disfunções correlatas (disgrafia, disortografia e déficit de atenção) e no quinto e último momento darei algumas notícias da dislexia no âmbito da política educacional do MEC, falando um pouco da minha experiência como integrante do GT - Transtornos Funcionais Específicos que define diretrizes nacionais para escolarização de crianças com dislexia, disgrafia, disortografia e déficit de atenção.
1. A dislexia no campo dos estudos lingüísticos
No campo da Psicolingüística, a dislexia possui uma rica tipologia. Para descrever alguns tipos, vamos tomar como referência lexicográfica, para nossa refundição terminológica, o trabalho de M. F. Xavier e Mira Helena M. Mateus, organizadores Dicionário de termos lingüísticos (Lisboa: Cosmos: 1990).
A dislexia pode ser considerada um tipo de afasia sensorial. Como tal caracteriza-se, segundo as autoras, pela incapacidade de compreender palavras escritas ou impressas, proveniente de lesão no lóbulo lingual. O indivíduo é incapaz de ler correctamente, apesar de a sua visão ser perfeita e de poder soletrar ou, mesmo, escrever. No caso da criança, especialmente no ensino fundamental, quando manifesta, a dislexia pode tratar-se de um fracasso inesperado na aprendizagem da leitura e da escrita na idade prevista (dislexia de desenvolvimento), enquanto no caso do adulto se trata de dificuldades na leitura depois de acidente vascular cerebral ou traumatismo cerebral (dislexia adquirida).
Basicamente, os autores apresentam os dois tipos fundamentais de dislexia: a adquirida e a desenvolvimental. A dislexia adquirida, como o próprio nome sugere, é um distúrbio adquirido que se caracteriza pela incapacidade de ler ou deterioração da função de ler, resultante de um acidente vascular cerebral ou traumatismo cerebral. São quatro os tipos de dislexia adquirida: dislexia fonológica, dislexia profunda, leitura soletrada (dislexia de estrutura de palavra ou síndrome de Déjerine) e dislexia de superfície.
A dislexia desenvolvimental ou dislexia de desenvolvimento refere-se a distúrbios de leitura e de escrita que ocorrem na educação infantil.Em geral, a criança tem dificuldade em aprender a ler e escrever e, especialmente, em escrever corretamente sem erros de ortografia, mesmo tendo o Q.I. acima da média.
Ao lado da dislexia adquirida e desenvolvimental, existem outras manifestações da síndrome disléxica. Uma delas é a chamada dislexia de estrutura de palavra que consiste na incapacidade de ler a não ser pronunciando em voz alta uma letra de cada vez. É o único tipo de dislexia adquirida que pode ser explicado do ponto de vista neurológico. Na maioria dos casos a escrita não é afetada.Não menos importante é a dislexia de superfície que se define como a incapacidade de ler caracterizada por distúrbios que ocorrem entre o sistema de reconhecimento visual de palavras e o sistema semântico. O paciente continua, no entanto, a poder dizer a palavra já que o sistema de reconhecimento visual e o sistema responsável pela produção da voz continuam intactos.
A dislexia fonológica, de grande interesse para a Pedagogia, refere-se à incapacidade de ler em voz alta as não-palavras e as pseudo-palavras, por exemplo, "bur", "páquina", enquanto se mantém intacta a capacidade de leitura do vocabulário corrente. O indivíduo pode acusar igualmente outros sintomas, por exemplo, erros visuais ao produzir pseudo-palavras na leitura em voz alta, em vez da palavra existente, por exemplo "páquina" em vez de "máquina". Erros derivacionais também podem surgir na leitura oral, especialmente quando contêm morfemas presos.
Há dislexia profunda que pode ser definida como a incapacidade de ler sem cometer erros semânticos. As outras afirmam que podem observar-se, no caso da dislexia profunda, igualmente, outros sintomas, tais como deficiência visual, substituição de palavras funcionais e erros derivacionais. Palavras dificilmente representáveis por imagens tornam-se mais difíceis de ler em voz alta do que as de representação fácil; os verbos são mais difíceis de ler em voz alta que os adjetivos, os quais, por sua vez, são mais difíceis de ler do que os substantivos. O paciente pode ser diagnosticado como disléxico profundo se na sua leitura em voz alta forem detectados apenas erros semânticos.
[1] Palestra realizada no Auditório da Biblioteca do Centro de Humanidades da UFC como atividade da disciplina Psicolingüística (Distúrbios da produção e da compreensão da linguagem), ministrada pela Dra. Rosemeire Monteiro e parte da programação de palestras do Grupo de Estudos em Lingüística Aplicada – GESLA, coordenado Profª Dra Marlene Mattes, ambas, docentes do Departamento de Letras Vernáculas do Curso de Letras e do Programa de Pós-Graduação em Lingüística. Fortaleza, em 15 de setembro de 2008. Versão preliminaríssima.
[2] Vicente Martins é professor de Lingüística do Curso de Letras da Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA), em Sobral. Mestre em educação(ensino) pela UFC. Coordena os cursos de especialização na área de Letras da UVA e o Grupo de Estudos Lingüísticos e Sociais (GELSO), em Sobral. Atualmente, integra Grupo de Trabalho(GT) - Transtornos Funcionais Específicos da Secretaria de Educação especial(SEESP) e da secretaria de Educação básica (SEB) Ministério da educação, em Brasil, que elabora de documento com diretrizes nacionais para a escolarização das crianças com dislexia, disgrafia, disortografia e déficit de atenção.
Vicente Martins[2]
Introdução
A dislexia é uma dificuldade específica na aprendizagem da leitura com repercussão, muitas vezes, na ortografia (disortografia). Os disléxicos mais comum no âmbito escolar são aqueles que, sem consciência fonológica, apresentam dificuldade de fazer o reconhecimento da palavra escrita, ou seja, não conseguem transformar as letras em sons da fala (fonemas da língua como vogais, semivogais e consoantes).
Neste encontro, primeiramente, tratarei de situar a dislexia no campo dos estudos lingüísticos, postulando seu caráter interdisciplinar, categoria de estudo presente na Psicolingüística, Lingüística Aplicada, Lingüística Clínica e Aquisição da Linguagem. No segundo momento, mostraremos que, a partir de um recorte de um referencial teórico no âmbito dos estudos da linguagem e de suas perdas (dis-lexia, dis-grafia, dis-ortografia), poderei postular a dislexiologia como ramo da Psicolingüística, abordando aspectos do conceito, descrição, avaliação, explicação e tratamento (intervenção) nos casos de dislexia em idade escolar. No terceiro momento, falarei da importância do diagnóstico ou de uma sondagem da dislexia no meio escolar, assinalando os parâmetros lingüísticos e paralingüísticos (por exemplo, o disléxico tende a ter problemas de ajustamento emocional) de observação do professores em sala de aula. No quarto momento, faremos comentários aos relatos de casos de dislexia e de outras disfunções correlatas (disgrafia, disortografia e déficit de atenção) e no quinto e último momento darei algumas notícias da dislexia no âmbito da política educacional do MEC, falando um pouco da minha experiência como integrante do GT - Transtornos Funcionais Específicos que define diretrizes nacionais para escolarização de crianças com dislexia, disgrafia, disortografia e déficit de atenção.
1. A dislexia no campo dos estudos lingüísticos
No campo da Psicolingüística, a dislexia possui uma rica tipologia. Para descrever alguns tipos, vamos tomar como referência lexicográfica, para nossa refundição terminológica, o trabalho de M. F. Xavier e Mira Helena M. Mateus, organizadores Dicionário de termos lingüísticos (Lisboa: Cosmos: 1990).
A dislexia pode ser considerada um tipo de afasia sensorial. Como tal caracteriza-se, segundo as autoras, pela incapacidade de compreender palavras escritas ou impressas, proveniente de lesão no lóbulo lingual. O indivíduo é incapaz de ler correctamente, apesar de a sua visão ser perfeita e de poder soletrar ou, mesmo, escrever. No caso da criança, especialmente no ensino fundamental, quando manifesta, a dislexia pode tratar-se de um fracasso inesperado na aprendizagem da leitura e da escrita na idade prevista (dislexia de desenvolvimento), enquanto no caso do adulto se trata de dificuldades na leitura depois de acidente vascular cerebral ou traumatismo cerebral (dislexia adquirida).
Basicamente, os autores apresentam os dois tipos fundamentais de dislexia: a adquirida e a desenvolvimental. A dislexia adquirida, como o próprio nome sugere, é um distúrbio adquirido que se caracteriza pela incapacidade de ler ou deterioração da função de ler, resultante de um acidente vascular cerebral ou traumatismo cerebral. São quatro os tipos de dislexia adquirida: dislexia fonológica, dislexia profunda, leitura soletrada (dislexia de estrutura de palavra ou síndrome de Déjerine) e dislexia de superfície.
A dislexia desenvolvimental ou dislexia de desenvolvimento refere-se a distúrbios de leitura e de escrita que ocorrem na educação infantil.Em geral, a criança tem dificuldade em aprender a ler e escrever e, especialmente, em escrever corretamente sem erros de ortografia, mesmo tendo o Q.I. acima da média.
Ao lado da dislexia adquirida e desenvolvimental, existem outras manifestações da síndrome disléxica. Uma delas é a chamada dislexia de estrutura de palavra que consiste na incapacidade de ler a não ser pronunciando em voz alta uma letra de cada vez. É o único tipo de dislexia adquirida que pode ser explicado do ponto de vista neurológico. Na maioria dos casos a escrita não é afetada.Não menos importante é a dislexia de superfície que se define como a incapacidade de ler caracterizada por distúrbios que ocorrem entre o sistema de reconhecimento visual de palavras e o sistema semântico. O paciente continua, no entanto, a poder dizer a palavra já que o sistema de reconhecimento visual e o sistema responsável pela produção da voz continuam intactos.
A dislexia fonológica, de grande interesse para a Pedagogia, refere-se à incapacidade de ler em voz alta as não-palavras e as pseudo-palavras, por exemplo, "bur", "páquina", enquanto se mantém intacta a capacidade de leitura do vocabulário corrente. O indivíduo pode acusar igualmente outros sintomas, por exemplo, erros visuais ao produzir pseudo-palavras na leitura em voz alta, em vez da palavra existente, por exemplo "páquina" em vez de "máquina". Erros derivacionais também podem surgir na leitura oral, especialmente quando contêm morfemas presos.
Há dislexia profunda que pode ser definida como a incapacidade de ler sem cometer erros semânticos. As outras afirmam que podem observar-se, no caso da dislexia profunda, igualmente, outros sintomas, tais como deficiência visual, substituição de palavras funcionais e erros derivacionais. Palavras dificilmente representáveis por imagens tornam-se mais difíceis de ler em voz alta do que as de representação fácil; os verbos são mais difíceis de ler em voz alta que os adjetivos, os quais, por sua vez, são mais difíceis de ler do que os substantivos. O paciente pode ser diagnosticado como disléxico profundo se na sua leitura em voz alta forem detectados apenas erros semânticos.
[1] Palestra realizada no Auditório da Biblioteca do Centro de Humanidades da UFC como atividade da disciplina Psicolingüística (Distúrbios da produção e da compreensão da linguagem), ministrada pela Dra. Rosemeire Monteiro e parte da programação de palestras do Grupo de Estudos em Lingüística Aplicada – GESLA, coordenado Profª Dra Marlene Mattes, ambas, docentes do Departamento de Letras Vernáculas do Curso de Letras e do Programa de Pós-Graduação em Lingüística. Fortaleza, em 15 de setembro de 2008. Versão preliminaríssima.
[2] Vicente Martins é professor de Lingüística do Curso de Letras da Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA), em Sobral. Mestre em educação(ensino) pela UFC. Coordena os cursos de especialização na área de Letras da UVA e o Grupo de Estudos Lingüísticos e Sociais (GELSO), em Sobral. Atualmente, integra Grupo de Trabalho(GT) - Transtornos Funcionais Específicos da Secretaria de Educação especial(SEESP) e da secretaria de Educação básica (SEB) Ministério da educação, em Brasil, que elabora de documento com diretrizes nacionais para a escolarização das crianças com dislexia, disgrafia, disortografia e déficit de atenção.

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